Resenhas, artigos e contos

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[Conto] Você Nunca Soube

Esse conto ganhou uma segunda versão no início de 2015 e foi republicado na plataforma da Amazon e, eventualmente, em sites de leitura gratuita, como Wattpad e Widbook. Nesse meio tempo, o blog se encontrava desatualizado, e por isso estou postando-o aqui. Deixarei também os links para os sites onde o conto se encontra disponível.




O garoto escolheu a noite para escrever uma história de amor vivida. A página em branco aguardava o que muitos jovens segredavam entre si, e ele preferiu converter seus sentimentos em prosa, pois era a maneira mais autêntica de extravasá-los. De uma assentada, derramou as palavras no editor de texto e concluiu com um amargo ponto final. Sentiu-se mais leve, mais livre, menos triste. E para quem convivia com noites de insônia, dormiu logo ao deitar na cama.

Na manhã seguinte, percebeu que o computador ficara hibernando durante a madrugada. Talvez tenha se esquecido de desligá-lo corretamente à noite. Decidiu então revisar o texto. Abriu o arquivo e… observou algo muito estranho. Viu trechos em itálico entre os parágrafos que ele havia escrito, trechos que não estavam ali até ontem à noite.
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A garota de quem eu gostava sentava-se longe de mim… no outro canto da sala de aula. Eram apenas cinco metros, distância ideal para vê-la e ruim para senti-la. Era melhor assim, típico de um admirador secreto. Me declarar? Nem pensar. Só queria admirá-la; aquelas feições delicadas, o cabelo com o corte que me agradava, o sorriso fácil entre as amigas. Me perdia no tempo só de olhá-la. Se o professor lecionava algo complexo, eu vivia algo mais confuso: o amor.
Você nunca soube, mas imaginava que estivesse olhando pra mim. Você desviava os olhos sempre que eu virava o rosto na sua direção, quando eu fingia chamar um amigo perto de ti. Também era sua admiradora secreta, e até mudei meu corte de cabelo por você. Fazer uma declaração? Não, fiquei esperando ouvir uma.
Pensei em mil maneiras de falar com ela, das mais simples às engenhosas, mas em todas me faltou coragem. Nossas palavras eram polos contrários de um imã, não porque não entendíamos um ao outro, mas porque nossas vozes nunca se cruzavam. Que dizer então dos sentimentos, presos numa gaiola de agonia? A chave era a linguagem, contudo onde estava a coragem? ‘Basta um empurrãozinho’, afirma um mundo otimista. Fui empurrado em raras ocasiões, quando chegar atrasado à escola ou mudar de carteira durante um exame nos deixaram lado a lado. Nessa circunstância, não era capaz de sequer observá-la com olhos oblíquos. Pelo menos sentia sua presença, algo conflitante como o calor aconchegante de uma lareira e o vento gélido que entra pela porta aberta. Suava e me arrepiava, e o ponteiro maior do relógio acima da lousa parecia mover-se a cada dois segundos. Ao fim da aula, esperava ela se afastar, e só então conseguia respirar.
Você nunca soube, mas pensei em dez mil maneiras de falar contigo. Uma delas teria funcionado se, quando nos sentávamos lado a lado, você tivesse tido coragem para me olhar, porque enquanto você se acovardava, eu te olhava. Espiava as horas no relógio; o tempo se movia, menos você. Queria que, pelo menos uma vez, nossos olhares tivessem se cruzado.
Às vezes a via na biblioteca, passeando pelas sessões que eu frequentava. Claro, eu aguardava que ela saísse, enquanto vagava a esmo por estantes de economia e medicina. Mas quase sempre procurava brechas nas estantes para espiá-la, querendo saber para qual livro sua mente viajava. Um garoto normal criaria coragem (quantas vezes já disse essa palavra?) para perguntar que livros ela gosta de ler, ao invés disso, chequei o verso da contracapa de todas as obras de literatura brasileira, inglesa, americana e portuguesa na biblioteca à procura de seu nome assinado na ficha de devolução. Constatei uma predileção por romances de época, porém, nos últimos meses, ela vinha apreciando algumas histórias de fantasia e ficção científica, gêneros de minha preferência. Curioso, pois nunca a peguei lendo qualquer um desses livros.
Você nunca soube, mas passei realmente a gostar dos mesmos livros que você. Uma vez li a frase de certo escritor que dizia: ler um livro é para o bom leitor conhecer a pessoa e o modo de pensar de alguém que lhe é estranho. É procurar compreendê-lo e, sempre que possível, fazer dele um amigoAchei que assim poderia ver o mundo da maneira como você o vê. Era uma forma de senti-lo perto de mim, como um amigo.
Em dias de seminário, nunca faltei a uma apresentação dela. Tinha uma voz que era como seda escorregando na pele. Suas palavras me afagavam, e eu me sentia enternecido. Minha mente recebia de bom-grado o que ela dizia, como um anfitrião generoso para com seu novo hóspede. Contudo, nunca a fitava por mais de um segundo, com receio de que seus olhos encontrassem os meus. Quando era eu quem apresentava, ela sempre faltava. Ainda bem, pois começava a gaguejar sob seu olhar.
Você nunca soube, mas treinava minha dicção, sozinha no quarto, imaginando-o como ouvinte. As notas altas nos seminários foram graças a você, que compareceu em todos eles. Mas, sabe, enquanto eu apresentava, meus olhos evitavam sua imagem, com receio de que seus olhos encontrassem os meus. E quando notei que minha presença atrapalhava seu desempenho, decidi faltar as suas apresentações, pensando no melhor para nós dois.
Na saída da escola, ao aguardar o ônibus para voltar pra casa, escolhia ficar em um local afastado dos outros alunos. Era um lugar perfeito para observá-la: a pasta de estudo aninhada ao peito enquanto aguardava um ônibus diferente do meu. Ainda bem, porque seria sufocante se, por acaso, nos sentássemos no mesmo banco. Algumas vezes cheguei a perder meu transporte por tê-la inteiramente nos olhos.
Você nunca soube, mas eu ficava ali de propósito, para que me notasse. Era um pouco constrangedor, porque às vezes não sabia se estava olhando para mim ou para os ônibus que se aproximavam.
Nos intervalos das aulas, acontecia de nos depararmos em algum corredor, sozinhos. Restava-me abaixar a cabeça e fingir que estava focado no celular ou em qualquer outra coisa que tivesse em mãos.
Você nunca soube, mas quando nossos caminhos se cruzavam pela escola, por um ou dois segundos após inclinar o rosto, eu o levantava na esperança de que você também o fizesse.
Por que eu não conseguia falar com ela?
Por que você não veio falar comigo?
Naquele dia, eu devia ter falado. Havia tanto a dizer. Éramos metade de uma romã, tão clichê e simples assim. Teria dado certo. Quando desci do ônibus e a encontrei ao meu lado aguardando para atravessar a rua, poderia ter pronunciado um ‘Oi’, ‘Bom dia’, ou qualquer outra coisa. Mas não tive coragem, e ela seguiu em frente.
Você nunca soube, mas, naquela hora, também não consegui lhe dizer nada. Tive a esperança de aguardar suas palavras, um desejo que me acompanhou enquanto eu atravessava a rua.
Foi de repente. Um carro avançou o sinal e pegou-a em cheio: a menina que eu amava. Atropelou igualmente meus temores, minha insegurança. Soltei-me de minha própria covardia e acorri ao corpo caído na pista. Ouvi o carro dar partida, sem se importar com a vítima. Que alguém anotasse a placa! Eu só queria ver o rosto dela, cujos olhos abertos, ainda vivos, encaravam-me. A boca ensanguentada vibrou com sons imprecisos, parecia querer me dizer algo. Porém, esses resquícios de vida logo se extinguiram, e ela se transformou em um corpo sem alma, a metade de uma romã comida pela morte enquanto a outra parte estragava.
Você nunca soube que eu te amava.