Resenhas, artigos e contos

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Dracocídio (Capítulo 4)



Os bons sonhos dragonescos embalavam a maioria das noites de Seph, sejam estas estreladas ou não. Certa noite, porém, as estrelas deixaram de cintilar por minutos, e mesmo a lua foi privada de clarear a parte adormecida do mundo, que mergulhou em trevas súbitas e desesperadoras. Nessa noite, Seph não teve bons sonhos nem vislumbrou dragões, foi assaltado por um pesadelo.
Encontrava-se em um ambiente cavernoso, percorrendo trechos curvilíneos e tendo a impressão de estar subindo em espiral. Sob seus pés descalços, o terreno parecia a superfície de uma rocha aquecida pelo sol. A única iluminação provinha de fendas contínuas na parede à direita, um brilho alaranjado que penetrava junto a uma onda de calor. Algumas dessas fendas eram grossas o bastante para espiar através delas, e foi o que Seph fez. Em gradual aflição, notou que esteve subindo em torno de um poço de lava que não parava de ganhar altura, como se ali fosse a chaminé de um vulcão prestes a entrar em erupção. Seph se afastou e pôs-se a correr antes que a lava subisse ao nível de onde estava e começasse a vazar pelas aberturas da parede. Era uma sensação parecida a de estar em um navio que afundava a cada segundo. Passados instantes imensuráveis, enxergou a mesma luz das fendas no final do caminho. Quando alcançou o topo, contemplou o poço de lava em ascensão furiosa lá embaixo e percebeu-se como um ponto minúsculo incrustado na parede de uma cratera vulcânica. Olhou para o alto e viu um céu com suas últimas estrelas se apagando. A lava continuava subindo. Seph desejou ter asas, como um dragão, para voar e ser engolido pela escuridão do céu. De repente, sentiu algo nas costas. Um empurrão. Caiu, para ser engolido pela lava. E soltou um grito de pânico que espantou o silêncio de seu quarto. 
A primeira ação ao abrir os olhos foi esfregar a testa suada, percebendo também o edredom encharcado que o cobria. Levou algum tempo até convencer o coração a descer de sua boca e se acalmar dentro do peito resfolegante, e só então procurou refletir o conteúdo do sonho, ou melhor, do pesadelo. Na verdade, tentou entender a estranha impressão que a cena onírica lhe provocou, algo próximo de um mau agouro... Uma morte. Mas de quem? Não sabia.
E também não sabia que havia acordado no exato momento em que a lua e as estrelas voltaram a brilhar. Enquanto as pessoas da parte adormecida do mundo enchiam-se de alívio na contemplação das fontes luminosas no céu, um sentimento doce emparelhou-se e, em seguida, sobrepôs-se ao amargo presságio de Seph. Achou aquilo estranho, como se um fato ruim houvesse gerado uma sequela benevolente.
Seph mastigou essa sensação por oito dias. Não comentou o assunto com a família, nem mesmo com sua mãe, a quem era mais chegado. Sentia-se bem, porém distraído. Causou desgosto ao seu preceptor na hora das lições, pois enquanto um elucidava sobre as planícies da terra de Eroar, o outro tinha os olhos fixos naquilo que não via e sim imaginava. É alguma coisa sólida. Foi humilhado por Eddy em todas as partidas de todas as brincadeiras, e o primo encerrou prematuramente uma tarde recreativa por conta da desatenção de Seph. É verde, um verde igual ao dos meus olhos. O sabor das refeições parecia insípido, as horas no banho, duradouras, as leituras, enjoativas. Mas as noites eram gostosas aventuras na companhia de dragões. A cada dia transcorrido, Seph conseguia especificar a imagem na cabeça.  
Tem a forma oval.
Percebia aquilo indo ao seu encontro, e a distância zerou no dia em que o pai retornou de uma viagem de dois meses. Boris Dracomir e sua escolta chegaram com três carroças cobertas por lonas; uma delas parou em frente à porta da mansão. Seph não tinha um bom ângulo pela visão da janela do quarto, mas os homens pareciam descarregar alguma coisa revestida por um pano para dentro de casa.
A curiosidade impeliu Seph a correr apressadamente pelos corredores. Foi alvejado por dezenas de olhos de dragão presentes nas estátuas de mármore, nas tapeçarias deslumbrantes, nas pinturas a óleo, nos entalhes das portas… Chegou, enfim, ao saguão. Contando com ele, estavam presentes todos os nove membros da família. A mãe, o pai, o irmão mais velho, o primo, o tio, a prima e as duas tias. Os dois lacaios que carregavam o enorme objeto quadrado e coberto eram guiados pelo pai no interior da casa, enquanto os demais familiares cochichavam entre si. Seph observou nos adultos alguma estranha empolgação, como se soubessem do real conteúdo debaixo do pano. Mas o garoto não tinha dúvidas.
É aquilo. A imagem que se aproximou de Seph nos últimos dias. E ele sabia a sua forma, mas não o conteúdo. 
Um homem de estatura mediana, mas semblante respeitável, calvo, vestindo gibão de couro, aproximou-se dos familiares. Era Derick, o braço direito de seu pai. Mas Seph não se lembrava de ele ter uma queimadura no lado esquerdo do rosto, provavelmente adquirida em algum infortúnio da viagem. Ninguém fez qualquer pergunta sobre esse ferimento, em vez disso, seguiram-no até a porta que dava para a sala de refeições, depois por um corredor à direita, outro à esquerda, para, enfim, chegarem numa porta aberta que descia para o porão.
Era o único recinto da casa que Seph visitara apenas uma única vez, pois praticamente todos os lugares já serviram de esconderijo em diversas ocasiões nas brincadeiras de pique-esconde. Há quatro anos, quando os dois primos brincavam de pique-esconde com ele, Seph resolveu usar o porão como esconderijo. Lembrava-se da descida ligeira pelos degraus de madeira, da excitação ao se esconder atrás de um caixote, e da longa espera em que sua respiração foi a única coisa a se ouvir naquele ambiente clareado por quatro ou cinco lamparinas a óleo. Esperava escutar o ranger da porta e depois os passos nos degraus, mas o som que lhe assaltou foi um baque forte, como se alguém houvesse esmurrado a parede. Seph olhou para os lados, tentando identificar a origem do som, e presumiu que havia sido um ruído na parte de cima da casa. Três baques acelerados na madeira, e Seph mudou de opinião. Saiu de trás do caixote e varreu os olhos amedrontados pelo lugar.
— Tem alguém aqui? — Por um momento, pensou que a prima Helena, um pouco mais velha que Eddy, também escolhera o porão para se esconder e entrara ali antes dele. Quando vira Seph descer os degraus, passou-se pela cabeça travessa dela a ideia de assustá-lo. — Helena?
O som de resposta foi longo e metálico, semelhante ao atrito da lâmina de uma espada com sua bainha. Apesar do frio no porão, gotas de suor escorriam da testa de Seph, que com o corpo endurecido de crescente apreensão, buscou alguma figura fantasmagórica no entorno. E a apreensão culminou num intenso pavor que fez seus pés correrem de volta aos degraus, quando a visão flagrou, projetada na parede de madeira, a sombra de alguém erguendo uma espada e descendo-a naquele mesmo instante. Desde então, Seph nunca mais retornou ao porão.
Pelo menos desta vez não estaria sozinho, e achava difícil um fantasma impor seus feitos assombrosos. Ainda assim, Seph foi o último a descer e, da escada, observou no fundo do recinto, por cima da cabeça dos familiares que se arranjavam num semicírculo, o tal objeto quadrado. Os dois lacaios que o carregaram, gêmeos de pele parda, cabeça raspada, musculosos e recém-saídos da adolescência, passaram por Seph, mirando-o com expressões apáticas, e subiram de volta ao térreo. À exceção de Derick, só os membros da família estavam ali. Quando Seph se juntou a eles, após alguns segundos de expectativa, Boris acentuou na barba bem aparada os seus lábios em meia lua e falou aos demais:
— Somos a geração afortunada. Contemplem o amanhecer de um novo mundo. — E puxou o pano que escondia a verdadeira razão daquela reunião.
Era uma gaiola.
Os olhos de Seph se arregalaram, o coração bateu fortemente contra o peito. Aquilo trouxe à tona uma incrível sensação de êxtase, a realização de todos os seus sonhos e fantasias noturnas, o abstrato tornado concreto, a existência divina num futuro corpo de carne, ossos e chamas.
Dentro da gaiola, jazia um ovo de dragão.

— — —

Os sonhos de Seph não eram mais habitados por dragões há anos. Esses deuses, agora, preenchiam sua realidade como num longo e fatigante pesadelo.
No tempo noturno de Beltic, Seph estava mergulhado em um sonho que o fazia se lembrar do passado. Uma caverna subindo em espiral, luz vermelha jorrando por entre as fendas da parede à direita, uma corrida frenética até o topo, a visão de um poço de sangue se elevando, e um empurrão que o fez cair do alto e acordar num silencioso sobressalto.
Seph discerniu um quadrado azul borrado de branco, e assim tomou conhecimento da manhã. Sentou-se na cama de colchão de palha, esfregou os olhos e refletiu acerca do sonho ruim que tivera. Uma sensação familiar espreitava-lhe a memória, algo de um pretérito muito distante e inocente, como ver um conhecido de relance após mais ou menos vinte anos. O que seria? Foi até a janela. Um sentimento quente e lamurioso sibilava na alma. Vislumbrou o panorama campestre: a estrada que saia da cidade serpenteando um matagal de grama rala até sumir na linha do horizonte. Seja o que for, está em algum ponto do meu caminho, ele pressentiu.
As ruas de Beltic já estavam movimentadas quando Seph saiu da estalagem; o pernoite havia custado duas moedas de prata, o equivalente a dez canecas de cerveja. Errantes subiam em cavalos e carroças para tomarem seus rumos após uma noite de descanso. E Seph também imediatamente o faria, atraído pelo forte desejo de seguir a estrada para fora da cidade, mas, com esforço, restringiu-se apenas a saciar essa curiosidade com a visão do caminho que se estendia. Antes, precisava reabastecer os suprimentos para durar até a próxima cidade, Brigodânia. Examinou pães, frutas e legumes nas barracas dispostas no limiar de Beltic e percebeu que a maldita sensação fazia-lhe apressar as escolhas pelas unidades mais apetecíveis. Não demorou muito, e, enfim, cruzou a saída de Beltic.
Nos primeiros quilômetros a estrada já oferecia várias segmentações que levavam a lugares distintos. Seph absteve-se de olhar seu mapa e decidiu pelas direções que mais o aproximava do cerne de sua sensação — mais contundente a cada dúzia de passos —, e aos poucos foi dissecando-a até achar que as palavras “morte” e “vida”, nessa ordem, tinham alguma relação com isso. Ademais, aquela parecia uma estrada com destino a uma lembrança remota; parecia que cada passo era um movimento de mão escavando mais fundo em sua memória.
É algo vivo, imaginou Seph. 
Horas depois, quando as rochas escassas da região e a alta vegetação quase não projetavam sombras no chão — Seph calculou que eram por volta das doze horas —, a sensação era tão potente e chamativa que os pés não reprimiam a ansiedade. Era uma caminhada ligeira, enquanto a mente não parava de desenterrar outras palavras.
Caverna. Vermelho. Sangue. Homem. Caverna. Laranja. Lava. Dragão!
Lembrou-se com um misto de temor e atenção. Rapidamente desembainhou alguns centímetros da espada, mas a lâmina mantinha seu brilho ordinário. Não havia qualquer dragão ali, por enquanto. Seu próximo alvo era cultuado em Agridrain, há vários dias dali, contudo, nem sempre os deuses permaneciam em suas terras. Será que o dragão iria tão longe para matá-lo?
Nos minutos seguintes, a vegetação desolada e irregular foi dando lugar a uma gramínea bem podada onde situava-se um punhado de casas rústicas. Está perto. Numa daquelas casas de barro estaria o que tanto o atraía. Mirou com acuidade cada uma das moradias até fixar o olhar numa casa localizada a menos de trinta metros da estrada. Uma última olhada na lâmina: fria. Por cautela, pousou a mão sobre o punho da arma e aproximou-se. Viu um casal saindo da casa, ombros encolhidos e rostos cabisbaixos, e lhes perguntou a razão de tanto abatimento em seus corpos.
— Uma tragédia… — disse a mulher amparada pelo marido. Ambos pareciam ser moradores locais, tinham a vestimenta e o jeito campestre. —… mas também uma benção.
Seph quis entender que tipo de tragédia e benção a mulher se referia, e foi então que uma lamúria sincera regou suas sementes de dedução e fez crescer no mistério a verdadeira compreensão. Morte e vida. Queria confirmar com os próprios olhos, mesmo com os ouvidos recebendo a reprodução do primeiro som da vida. Caminhou até a casa e parou logo na entrada. À frente, ao lado da pia, sentada numa cadeira, uma mulher senil procurava acalentar a criança recém-nascida em seu colo que não parava de chorar. Sua atenção deu uma guinada para o outro lado do cômodo, onde um corpo amortalhado jazia sobre a mesa.
— Era a mão dele, coitadinho. Shhh, shhh, não chore, bebê. Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem.  
— Minhas condolências — disse o andarilho.
— Ela morava sozinha aqui. Este filho… foi uma gravidez indesejada, se o senhor me entende — disse ela, observando o visitante se aproximar do corpo e descobrir o rosto falecido. — Era tão jovem… — Seph observou que a mulher tinha acabado de adentrar a idade dos vinte anos, tinha os cabelos encaracolados e negros, o nariz de batata e os lábios bem finos. De que cor seriam os olhos? Mas Seph se contentou apenas com essas características e chegou a conclusão de que não a conhecia, ou, no mínimo, não lembrava ninguém a ele, pois sua memória provara há pouco ser incompetente para trazer à luz todas as suas lembranças pré-Dragonia. — Ganhava o pão fazendo bordados e os vendendo em Beltic — explicou a velha.
Seph deu novo impulso à reflexão, ainda havia detalhes obscuros naquilo tudo. O sonho na sua infância, decerto, tivera grande valor como presságio de uma nova era, mas não conseguia discernir a mesma importância ecumênica no presente caso. A mãe levava uma vida simplista guiada pela agulha, e a criança…
— O que vai ser deste bebê? — indagou o andarilho.
— Eu ficarei com ele, é claro — respondeu a velha. — Não deixarei este menino sem criação, serei como uma mãe para ele, e antes que eu parta deste mundo o ensinarei todas as artimanhas da roça.
… não parecia ser predestinado a grandes feitos, mas Seph gostava de acreditar que o ambiente familiar não ditava o destino de ninguém.
Seph saiu da casa, arrematando suas conclusões sobre o pequeno desvio que havia tomado. Sabia que sonhos não eram possíveis de serem totalmente desvendados, mas se havia alguma mensagem por trás dos significantes oníricos ele queria descobri-la. Pensou nos presságios revelados por cada sonho. Morte e vida. A relação entre os casos do passado e do presente não residia no valor do evento, visto a discrepância entre o nascimento de um dragão e o de um humano, mas em sua forma.
Tanto o bebê quanto o ovo de dragão só vieram à vida ao preço de uma morte.

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