Resenhas, artigos e contos

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[Artigo] Best-Sellers. Como surgem? Ler ou não ler?



Após ouvir a excelente 23º edição do LiteratusCast (podcast do site Homo Literatus, administrado pelo Vilto Reis) cujo tema são os consagrados ou amaldiçoados best-sellers, resolvi traçar algumas considerações sobre o assunto.

Literatura de massa e Best-Seller. O par é perfeitamente harmonioso, embora seja um equívoco dizer que todo livro de massa, sem sombra de dúvida, entrará na lista dos mais vendidos; da mesma forma, um best-seller necessariamente não precisa ser uma literatura de massa: o realismo maravilhoso cujo expoente é o escritor Gabriel García Márquez foi um grande boom na década de 70, principalmente com o título Cem Anos de Solidão, hoje considerado um clássico literário. Esse é apenas um dos exemplos de muitos clássicos que foram e ainda são livros bem vendidos. E se os clássicos venderam muito bem foi porque caíram no gosto do povo, ou seja, a ideia de que os clássicos são "livros que ninguém lê" acaba sendo insustentável.

O que faz um best-seller? Bom, há inúmeros motivos, e eles nem sempre são literários. Claro, esses romances foram estruturalmente escritos de forma a angariar considerável quantidade de leitores, e é preciso frisar de que maneira alguma essa obra perde sua qualidade artística só porque foi escrita voltada para o mercado. Seremos realistas e paremos para pensar que estamos no século XXI, que a Indústria já se apropriou  há tempos da literatura (não totalmente, e nunca conseguirá) para gerar seu belo capital, e que o escritor que realmente queira viver de seus livros para pagar suas contas e alimentar sua família deve escrever pensando em determinado nicho de leitores ou para os leitores de maneira geral. Apesar da palavra "mercado" acarretar um sentido meio deturpado para a arte do escritor, autores clássicos como Alexandre Dumas, Victor Hugo, e Dostoiévski também já escreveram romances folhetins que eram a "literatura de massa" daquela época. Além do mais, o escritor de literatura de entretenimento (particularmente, prefiro este termo em vez de "literatura de massa"), na verdade, não está olhando para as vendas e sim para os leitores, pois eles compõem o foco de seu trabalho; é por eles (e não pela crítica literária) que esse escritor vive.

Quanto aos motivos não literários, a capacidade de uma história ser reproduzida em diferentes mídias mostrou-se uma potente aposta de venda. Logo, livros inicialmente bem sucedidos como Harry Potter, Jogos Vorazes e Crepúsculo acabam ganhando adaptações cinematográficas, que por sua vez estimulam ainda mais as vendas dos livros. Às vezes, uma história de sucesso pertencente a mídia audiovisual é transposta para um romance, o que já garante um público consumidor - tanto os leitores quanto os fãs daquela história. Exemplos recentes desse último caso são os romances da série The Walking Dead, que recebe seguidores tanto dos quadrinhos e, principalmente, do seriado; e a série Assassin's Creed, oriunda dos videos games. Outro caso é o do autor  de A Batalha do Apocalipse, Eduardo Spohr, cujo sucesso catapultado pelo site Jovem Nerd passou a ser conhecido por todos os nerds do Brasil e eventualmente por leitores comuns. Nesse caso, o mérito do autor é ainda maior por quebrar uma barreira que todo o artista brasileiro encontra ao vender sua obra em território nacional, que é o "complexo do vira-lata" (termo criado por Nelson Rodrigues), ou seja, a desvalorização do brasileiro em relação ao resto do mundo, um problema que atinge a literatura, o cinema, a música, os quadrinhos e outras manifestações artísticas ou não. Por isso quando um autor brasileiro vende números expressivos de sua obra ele realmente merece ser ovacionado (apesar de certos literatas esboçarem um sorriso de escárnio).

Mas os best-sellers são leituras sadias? Para começo de conversa, qualquer leitura é sadia quando você se dispõe a ler por interesse. Mais importante não é o fato de você estar lendo best-seller ou não e sim explorar as razões pelas quais você está lendo esse livro bastante vendido. Não é porque um livro está vendendo na livraria como pão quente em padaria que o leitor PRECISA lê-lo, ele o faz se o livro for do interesse dele; e o oposto também é válido para os leitores que não querem se render a moda literária do momento, pois não há mal algum folhear um título best-seller atual se este gerar interesse. Ou seja, a sua escolha como leitor é o que importa. Escolher um livro consciente de que aquele livro é interessante não porque é um best-seller ou porque tem um renome literário, e sim porque aquele livro o cativou de um modo particular é a mais sincera e prazerosa opção de leitura que existe.

4 comentários

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Ótima análise, Luiz. Achei interessante que apesar de nos citar, você deu nova luz à questão, com novas considerações; e construindo um panorama geral.

No próximo LiteratusCast, vou colocar o link deste texto no post.

Grande abraço!

Balas
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Olá, Vilto. Como a discussão partiu do literatuscast, certamente iria citá-lo. Obrigado pela inserção do link no próximo podcast.

Abraços!

Balas
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Muito bom o seu texto, Luiz
E o fato de um livro ser muito vendido independe de sua qualidade, devendo cada um ser analisado individualmente.
Agradeço o link com o LiteratusCast e parabéns pelos projetos.
Abraço
G.G.

Balas
Autor
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Obrigado, Gabriel. De fato, precisamos analisar os diversos aspectos de um livro para não rotulá-lo levianamente.
Essa postagem não seria publicada sem o episódio do literatuscast no qual se baseia, então foi obrigação minha citar a fonte.
Abraço.

Balas