Resenhas, artigos e contos

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[Resenha] O Código dos Cavaleiros, de Leonardo Schabach

Editora: Mutuus Editora
Ano: 2011
Páginas: 204
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Sinopse: Um conto de cavalaria emocionante e inusitado, uma aventura medieval capaz de nos fazer refletir sobre nossa realidade. A obra retrata a jornada de um jovem camponês que deseja se transformar em um cavaleiro; um garoto chamado Lino que sonha em se tornar um honrado e poderoso combatente, um homem capaz de proteger os fracos e oprimidos, como os cavaleiros das grandes histórias. Porém, ao encontrar um nobre e seu companheiro de viagens, o mundo da cavalaria se mostra muito diferente de tudo o que ele imaginara. Lino passa, então, por algumas revelações capazes de mudar sua percepção de mundo. A história satiriza os clássicos contos de cavalaria medieval, revelando aspectos com os quais os leitores podem se identificar, em uma grande crítica ao momento atual de nossa sociedade. A narrativa possui características cômicas, envolventes e instigantes que tornam a obra uma leitura imprescindível e agradável.


Resenha

Escrito por Leonardo Schabach, o livro é uma aventura de cavalaria destinada a uma leitura leve e fluída, mas apostando na reflexão despertada nos próprios acontecimentos do enredo. O autor explica que trata-se de uma paródia às histórias de cavalaria e menciona Dom Quixote e um conto de Ítalo Calvino. Infelizmente, não tive a oportunidade de ler nenhuma das obras mencionadas, e por isso não terei como avaliá-lo nesse quesito.

O livro possui uma narrativa em terceira pessoa, não muito rígida para não comprometer a proposta da história, que é ser uma leitura leve e objetiva, e por isso mesmo aproveita-se de vários momentos de descontração. As descrições não chegam a ser profundas, apenas o básico para situar o leitor na cena, já que os cenários são lugares comuns que qualquer um que já viu ou leu uma história de cavalaria conseguirá imaginar. Acredito que tenha sido uma visão acertada, tendo em vista o intuito do texto ser uma leitura mais rápida para que o leitor se concentre na história. Além do mais, o livro conta com apenas 150 páginas, e a leitura das primeiras já deixa claro qual será o tipo de narrativa empregada. Mas embora o autor tenha procurado a linguagem simples para se comunicar com o leitor mais "popular" ou mais "jovem", o uso da linguagem coloquial de alguns personagens me pareceu forçada e deslocada, mesmo que a intenção tenha sido usá-la como separador entre o indivúduo pobre e sem instrução do mais nobre e refinado. 

A história centra-se no sonho de Lino, um jovem de 15 anos que almeja se tornar cavaleiro. O personagem funciona como uma metáfora para os dias de hoje, aliás, com qualquer "sonhador" em qualquer época e sociedade. A ingenuidade enquanto corre-se atrás de um sonho, a excitação que ele produz, a descrença dos familiares e desconhecidos a respeito desse sonho, o primeiro obstáculo que separa aqueles que irão desistir daqueles que irão seguir em frente, e, por fim, a consciência de que o sonho esconde sempre uma crua realidade que nunca é mostrada aos sonhadores, e sim somente quando eles alcançam esse sonho e percebem que tudo aquilo que imaginaram é muito diferente do que realmente é. Um exemplo fácil que se encaixa nessa história é do jovem escritor iniciante que acha que vai fazer muito sucesso, ser amado pelos fãs e ganhar muito dinheiro; mas a pessoa  que sonha com algo assim não sabe nem 99% das coisas que terá de fazer para conseguir isso. E interessante que, da segunda metade em diante, Lino perde um pouco o foco na história, e passamos a acompanhar mais de perto aquele que seria o seu mestre: Demétrios. Ao que parece, esse personagem foi aos poucos modificando sua forma de ser enquanto viajava ao lado do garoto, e isso resultou num corajoso ato seu no final. 

Mas a proposta inicial do livro ganha um novo sentido nas últimas páginas, envolvendo o destino de Lino e outros personagens, um final emocionante e reflexivo. Os sonhos juvenis são mutáveis na sociedade, a realidade consegue extinguir por completo o sonho e transformá-lo em algo diferente. Isso acontece muitas vezes devido a ingenuidade logo no início dos sonhos das pessoas, pois quando elas percebem que nada é como ela imaginara ser, seus objetivos mudam. Os sonhos pueris dos jovens não tem defesa contra a crueza do mundo real. 

Mesmo sustentando-se em alguns clichês, O Código dos Cavaleiros consegue ser uma boa história justamente por essa temática que revela ao indivíduo jovem e ingênuo de como funciona a lógica da sociedade e das razões que levam ela a ser como é.
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