Resenhas, artigos e contos

Resenhas, artigos e contos

[Evento] 1º Simpósio de Quadrinhos na UFRJ

Eu não sou leitor assíduo de histórias em quadrinhos, elas são leituras de permeio na minha lista literária. Claro, trago uma pequena bagagem de leitura, desde as revistinhas da Turma da Mônica até os mangás que acompanho atualmente, único tipo de quadrinhos que aprecio com regularidade. Mas, em breve, finalmente, pretendo alargar meus gostos e passarei a conferir algumas graphic novels: Sandman, do Neil Gaiman, será minha primeira leitura. 

Ano passado participei de um curso de extensão na faculdade sobre "Roteiro para Quadrinhos". Obviamente, com a pouca bagagem que tenho de leitura dessa arte, não pretendo seguir por esse caminho artístico, mas me interessa sua forma de produção para, quem sabe, num futuro onde estarei mais maduro, expressar-me através dos quadrinhos - sendo apenas o roteirista, já que de desenho só manjo de palitinho. Outro aspecto relevante é que mesmo um roteiro para quadrinhos possui suas semelhanças com a escrita de um romance, minha área de foco, pois ambas trabalham a criatividade de maneira bem próximas. Muda-se apenas a técnica empregada, mas o objetivo de contar uma história permanece. Na verdade, é sempre bom não nos focarmos somente em nossa área específica de atuação, pois sempre podemos enriquecer nosso conhecimento e liberar novas formas de criatividade a partir do contato com outras artes, seja ela a música, a pintura, o teatro, os games (por que não?), as histórias em quadrinhos, ou seja, qualquer manifestação artística com a qual possamos dialogar e tirar algum proveito. 

No dia 30 de Janeiro, data em que se comemora o dia do Quadrinho Nacional, aconteceu, na faculdade de Letras da UFRJ, o 1º Simpósio de Quadrinhos, um evento interessante não apenas pela sua temática, mas pelo contexto em que se realiza: o ambiente acadêmico. Essa é uma tecla que aperto bastante: a visão engessada da Academia. Infelizmente, o universo acadêmico é, de fato, uma torre de marfim, e seus residentes fazem desse lugar o próprio mundo, quando este se encontra fora da torre. Por isso, um estudo sobre quadrinhos, visto de forma marginalizada e sem valor por muitos "intelectuais", segundo estes, não merece espaço em ambientes "puros", afinal, muito do que se estuda na faculdade necessita ser filtrado pelo tempo. Bom, em se tratando de quadrinhos, já está muito atrasado; talvez o filtro tenha entupido, aliás, acho que ele sempre entope, propositalmente. Na minha faculdade, por exemplo, as melhores opções para quem deseja se aprofundar em algo diferente são os cursos de extensão - geralmente compostos por meia dúzia de aulas à parte da grade curricular - e a pesquisa acadêmica. Por essa razão, a realização desse evento é muito importante para começar a quebrar um pouco os paradigmas acadêmicos. 

O simpósio contou com as presenças de Ana Recalde, Denis Melo (Petisco Comics e Bela Dona), André Brown (Prof. e Dr. da UERJ), Clara Gomes (Bichinhos de Jardim), e Hamilton Kabuna como mediador e organizador.

Queria eu ter experiência o suficiente para discorrer todos os assuntos levantados durante o simpósio, mas escreverei aqui alguns pontos relevantes.


O primeiro deles diz respeito àquela pergunta polêmica que qualquer leitor um dia já fez ou ainda faz: "Quadrinhos é literatura?" Na verdade, essa é uma pergunta inadequada. A pergunta mais pertinente seria: "O que é Quadrinhos?" Nem me arrisco a discutir essa questão tão insolúvel quanto responder "O que é literatura?" No evento, a melhor definição (a meu ver) citada foi a de Scott McCloud: "imagens pictórias ou de outros tipos justapostas em sequência deliberada, com a intenção de transmitir informação e/ou produzir uma resposta estética no espectador." Aqui, entende-se as letras como imagens justapostas para formar a linguagem escrita.

Uma segunda questão interessante, concernente tanto aos escritores quanto roteiristas de quadrinhos que estão na faculdade, é saber se tenderão para a pesquisa acadêmica ou para a produção de sua arte. Comento isso, pois, enquanto estou na faculdade, tenho um leve interesse pela área de pesquisa, embora eu tenha mesmo é paixão pela criação, sentar na frente do computador ou de uma mesa com um caderno e começar a escrever criativamente. Ao que parece, pesquisa envolve tanta dedicação quanto a escrita de um livro, sendo praticamente impossível fazer ambas ao mesmo tempo sem afastar um ou outra em certa hora. É o caso, por exemplo, de um dos integrantes da mesa, o professor da UERJ, André Brown, que, bastante presente nos estudos sobre quadrinhos no ambiente acadêmico, é obrigado a deixar um pouco de lado sua parte artística. 

Outra questão também levantada foi a presença feminina na criação das HQs, ou seja, roteiristas e desenhistas do sexo feminino fazendo um arte comumente vista, principalmente nos EUA, como algo masculino. Um assunto comentado nesse debate foi a rigidez que algumas pessoas têm na associação de determinados gêneros ao sexo masculino ou feminino. Tomarei o mangá como exemplo. Temos o gênero shounen, voltado para público masculino, e o shoujo, para o feminino. Será que os leitores realmente ficam presos à seleção desses gêneros? Não! Há garotas que leem Bleach (mangá shounen) e Kimi ni Todoke (mangá shoujo), e vice-versa. O que acontece na sociedade é que somos criados a pensar que certas coisas são para homens e outras são para mulheres, e não é assim que funciona. É tudo uma questão de sensibilidade em relação a certas experiências. Como homem, tenho direito a gostar tanto de um filme de ação quanto de romance, e isso não define ou põe em jogo minha masculinidade, como muitos machistas podem pensar. E, em se tratando do plano da produção, felizmente, até onde sei, não existe preconceito com artistas que se debrucem em gêneros voltados para o público do sexo oposto. O escritor Luis Eduardo Matta, por exemplo, escreveu um livro chick-lit

O último ponto, e o mais debatido durante o evento, foi em relação ao mercado editorial de quadrinhos, que também se parece em muitos aspectos com o literário. Para quem já está por dentro do assunto são aquelas questões básicas de sempre: a desvalorização do roteirista por parte dos editores, a falta de maturidade dos roteiristas, a dificuldade na distribuição, e outros temas que permeiam a publicação tanto de uma HQ quanto de um livro. Muito se comentou da produção dos títulos estrangeiros, as HQs e os mangás; a verdade é que o Japão e os EUA já possuem uma base de mercado para viabilizar todo esse processo, e nós, aqui no Brasil, não. Muitos estão apostando na publicação independente, já que as editoras não garantem boa divulgação da obra e o retorno financeiro pelos direitos autorais é irrisório; só as livrarias já ganham uma boa fatia desse bolo. Foi comentado também, e já tinha ouvido falar através do Renan Barcellos (SteamlessPunkless e outros Cenários), sobre o financiamento coletivo ou crowdfunding: o artista apresenta seu projeto (no Catarse, por exemplo) e recebe capital de interessados para financiá-lo, dando alguma "recompensa" relacionado ao projeto quando finalizado. A série Combo Rangers, do Fábio Yabu, é um exemplo.  


Espero que este tenha sido apenas o primeiro de muitos simpósios de quadrinhos na faculdade. Valeu a pena ter matado aula de Teoria Literária para assisti-lo (risos).

2 comentários

Autor
avatar

A realização de um evento assim em um ambiente como a faculdade uma ótima iniciativa!
Uma oportunidade de ajudar a combater um pouco do velho preconceito de que quadrinhos são um entretenimento "menor".
Ah, e Luiz quando decidir escrever uma HQ pode contar com meu apoio ^^

Balas
Autor
avatar

Sim, espero que o mesmo passe a ocorrer em outras faculdades.
E, cara, quando eu me aventurar na escrita de um roteiro para quadrinhos, certamente pedirei para você dar uma olhada, rs. Aliás, estou gostando de ver seus projetos saindo. :)

Balas