Resenhas, artigos e contos

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[Resenha] Cidade dos Ossos, de Cassandra Clare


Editora: Galera Record
Páginas: 459
Ano: 2011
Sinopse: Um mundo oculto está prestes a ser revelado... Quando Clary decide ir a Nova York se divertir numa discoteca, nunca poderia imaginar que testemunharia um assassinato - muito menos um assassinato cometido por três adolescentes cobertos por tatuagens enigmáticas e brandindo armas bizarras. Clary sabe que deve chamar a polícia, mas é difícil explicar um assassinato quando o corpo desaparece e os assassinos são invisíveis para todos, menos para ela. Tão surpresa quanto assustada, Clary aceita ouvir o que os jovens têm a dizer... Uma tribo de guerreiros secreta dedicada a libertar a terra de demônios, os Caçadores das Sombras têm uma missão em nosso mundo, e Clary pode já estar mais envolvida na história do que gostaria.

Essa não será uma resenha muito eficiente quanto poderia ser. Eu interrompi a leitura de Cidade dos Ossos pelo menos umas três vezes por razões não relacionadas ao fato de estar gostando ou não de lê-lo, mas é verdade que tais interrupções me fizeram desgostar do livro que, por sinal, não me pareceu tão instigante com exceção de algumas partes. 

Os romances sobrenaturais, impulsionados pela febre Crepúsculo, não estão em minha lista de preferências. Portanto, não fazem parte do meu gênero habitual de leitura. Cidade dos Ossos, apesar da citação da autora de Crepúsculo na capa do livro - "Queridos Edward e Jacob, adoro vocês dois, mas vou passar meu fim de semana com Jace. Desculpe! Com amor, STHEPHENIE MEYER" -, o que me fez torcer a cara para o título tão logo ouvi falar dele, o trabalho de Cassandra Clare difere, em certa medida, da escritora pop da saga vampiresca(?). A diferença se evidencia até mesmo nas opiniões dos leitores, pois foi com base nas críticas destes que resolvi dar uma chance ao livro (assim como fiz com Jogos Vorazes, que já me foi apresentado como um bom livro dentre o "boom" de histórias distópicas juvenis no mercado). O segundo motivo para eu ter pego o livro é o lançamento do filme ano que vem, e que certamente irei conferir, pois tenho pendor por assistir adaptações literárias.

O livro tem uma premissa interessante cuja estrutura é básica: uma jovem aparentemente comum que começa a adentrar num submundo mágico e que, conforme vai imergindo nesse novo mundo, percebe que ela faz parte dele. A jornada da personagem é simples, mas bem construída; sua personalidade não é irritante, talvez normal diante dos eventos na história. Os demais personagens também não chegam a ser superficiais, mas não me cativaram muito. Jace e Simon, talvez por apresentarem diálogos descontraídos e integrarem o alívio cômico da história, com o último apelando para piadas nerds (o tipo de personagem que certamente irei gostar num livro), sejam os únicos que realmente me entreteram.

As primeiras páginas da trama envolvem um acontecimento numa discoteca: Clary encontra o núcleo de personagens - Jace, Isabele e Alec -, que apenas ela consegue enxergar, torturando um garoto punk. Após esse contato inicial, a protagonista é abordada por Jace mais adiante e, eventualmente, ela passa a conhecer os outros personagens e a desvelar um mundo de seres e lugares fantásticos na própria Manhattan.

A estrutura do livro é dividido em três partes: Declínio Sombrio, Fácil é o descenso, O descenso acena. Cada uma delas possui capítulos não muito similares em questão de tamanho; alguns deles são exageradamente extensos. O interessante, e achei isso bacana, são as epígrafes de cada uma dessas partes, constituídas de citações de autores clássicos e suas obras como John Milton (Paraíso Perdido), Virgínio (Eneida) e Willian Carlos Willian (The Descent), além de outras menções citadas pelos próprios personagens, e não exclusivamente de obras literárias. Enfim, um requinte interessante para um livro juvenil.

A narrativa não chega a ser excelente, mas também não é ruim, diria que mediana a um leitor habitual desse nicho literário. Entretanto, enquanto alguns trechos carecem de uma estética mais trabalhada, outros se destacam por ótimas passagens e utilizações de figuras de linguagem, que quase sempre ressaltam os sentidos. Ademais, as descrições encaixam-se perfeitamente no momento e no local adequado da narrativa, o que foi muito importante para uma compreensão do universo de Instrumentos Mortais que está longe de ser humilde. Muitos detalhes do "submundo" foram apenas pincelados nesse primeiro volume, já que a autora contou e explorou apenas o necessário para essa primeira parte da história. Entretanto, mais de 450 páginas para narrar os eventos do livro poderiam ter sido feitas em 400. Algumas cenas e diálogos ainda poderiam ser descartados ou melhor resumidos.

Um detalhe que não sabia sobre a autora, mas que ficou evidente enquanto folheava as páginas de Cidade dos Ossos, tanto na forma com que a história se desenvolvia, nos diálogos entre os personagens ou na interação entre eles, é que Cassandra Clare é uma apreciadora de mangá e anime. Tudo ficou ainda mais claro quando ela inseriu mangás na história, e quando a protagonista se revelou consumidora dessa arte. Foi esse detalhe que nulificou completamente minha impressão a respeito do livro que foi criada a partir da citação da Meyer na capa. "Ah, então a autora tem um lado otaku e deixa transparecer isso na história.", foi o que pensei. E, de fato, Cidade dos Ossos dialoga suavemente com o universo do mangá e anime em diversos níveis. Não cheguei a pesquisar, mas é provável que essa série tenha pisado no mundo das fanfics.

No final de tudo, achei um livro razoável, bom em certos aspectos peculiares, mas com muito potencial dentro do seu gênero. Assim como Jogos Vorazes também é um ótimo romance distópico juvenil, Cidade dos Ossos é um recomendado romance sobrenatural... Romance sobrenatural? Após o fim do livro, acho que ele não se enquadra exatamente nesse gênero. Acredito que nos volumes seguintes, Instrumentos Mortais irá um pouco mais além.